
Sendo assim, ia eu a caminho do trabalho, e quase me arrisquei a escrevê-los (aos pensamentos ditos brilhantes) num bocado de papel que trazia no bolso. Tinha sorte, pensei eu, pois havia uma caneta Bic preta num dos bolsos do meu casaco de couro. Estavam ao meu lado duas raparigas, e isso foi o suficiente, confesso-o agora, para inibir a minha coragem de escritor. Acabei por não escrever coisa alguma, espreitando apenas o bocado de papel, que para minha surpresa continha já meia dúzia, ou mais, destes pensamentos que por vezes considero brilhantes. Senti uma certa vergonha em exibir aquele papelito rabiscado em frente àquelas meninas bonitas. Era uma espécie de atestado de senilidade precoce, eu ali segurando um pedaço de papel com anotações crípticas, à maneira dos velhotes que coleccionam recortes de jornal, ou tomam nota de coisas absurdas que lhes parecem extremamente importantes. Assim sendo, os pensamentos brilhantes ficaram na gaveta, isto é, no sítio onde nasceram, pois os outros pensamentos (vergonha e desconforto da idade) levaram a melhor sobre o meu corpo. Fiz de conta que consultava uma nota importante, franzi o sobrolho de forma semi-inteligente, e guardei apressadamente o papel, sentindo nesse momento o corpo da caneta Bic na palma da mão, e era como se tudo em mim fosse uma traição.
1 comentários:
Hoje estás muito possinónio...
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