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terça-feira, 20 de abril de 2010

Saneamento básico

   Há duas primaveras em Portugal. A primeira é aquela que vem nos livros da escola e que todos nós conhecemos, que tem passarinhos enamorados, meninas adolescentes fazendo salivar os quarentões, árvores explodindo em tons de verde translúcido, e muitas hormonas viajando ao sabor dos ventos. Depois temos a primavera típica da nossa terra, que é a dos funcionários da câmara esburacando tudo quanto é passeio e rua das nossas cidades. Aparecem já de manga curta e colete fosforescente, capacete de protecção mal encaixado na cabeça pensadora, e normalmente trincam uma erva comprida em jeito de selvagens mascando tabaco. As combinações são infindáveis, e os propósitos do trabalho também. Temos serviços de saneamento, instalação de fibra óptica pela enésima vez, condutas de gás, ramal de electricidade em reposição, e quando chegam ao fim de um troço, começam a abrir de novo o chão com picaretas ensurdecedoras, em jeito de quem sinaliza a chegada da época da destruição. Quando os passeios são do tipo calçada portuguesa, então aí temos trabalho até ao início do outono, pim, pim, clac, numa arte de encaixar cubos de pedra que se pode dizer quase milenar. Além disto, dá-lhes na gana, muitas vezes, para serrarem árvores que fazem parte do património. Eu gosto muito da Primavera à Portuguesa!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O paradoxo da verdade

Esta frase é falsa.

sábado, 30 de janeiro de 2010

El Corte Inglés

   Os empregados do Corte Inglês surgem sempre em grupos de três, muito direitos e sorridentes, como se fossem figurantes de um qualquer filme invisível. Tem ar e pose de comissários de bordo, e isto não é de agora, pois quando era miúdo lembro-me de ir a Vigo e aquela aparência de felicidade saciada era a mesma. Uma calma solícita de quem vai ter prazer em encontrar uma criança perdida e a devolver a uns pais distraídos. Parecem estar sempre no meio de conversas curtas e inodoras, pontuadas por leves inclinações do corpo em jeito de conclusão do parágrafo. Braços atrás das costas, passinho adelante, gargalhada com sonoridade certificada pela norma ISO 9001, e depois dispersam como andorinhas e formam novos grupos de três unidades.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Escrita Inteligente

O meu telemóvel já reconhece as palavras foder, puta, merda, caralho, punheta, cabrão, paneleiro, cona e peido. Sinto-me orgulhoso por ele ter aprendido tão depressa. Acho que agora está mais preparado para a vida do que quando me veio parar às mãos. Nutro uma secreta esperança de que um dia, para além da escrita inteligente, ele me surpreenda com uma conversa inteligente. Se for preciso, até o mando estudar para o estrangeiro! Acho que ele sabe inglês, mas vou ver o que me diz o seu menu.