Mostrar mensagens com a etiqueta cena. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cena. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Loucura

   Foi nas escadas que davam para a luz do dia que ouvi a sua voz. As pessoas seguiam como soldados sonâmbulos, em fila indiana, degrau a degrau até à liberdade das árvores verdes, plantadas mesmo à saída da paragem. Ela dizia - doutora, eu não consigo... não consigo, não tenho vontade de nada... não sei que fazer doutora, eu não quero nada... não consigo ir trabalhar, eu não tenho vontade de nada, oh doutora - e eu tive medo de olhar para trás, e continuei subindo as escadas, atrás de uma formiga cinzenta, de punho cerrado e ameaçador, que no seu andar geométrico, quase me batia no queixo. Subíamos as escadas. Pensei, deve ser uma mulher madura, na meia-idade, desesperada, ligando à sua psiquiatra, e pensei também que a sua médica devia ser uma boa pessoa, caso contrário nem atenderia a sua chamada. Já no passeio a sua voz alta fura a cidade, e por entre as formigas vai pedindo ajuda, indiferente a tudo e a todos diz - mas doutora, eu não consigo... tive aqueles sonhos estranhos de novo, doutora, tenho aqueles pensamentos horríveis... eu não quero mais isto doutora... Eu penso que a mulher se despiu com estas palavras. Estará ela nua? Estará de pijama? Não tenho coragem de olhar para trás, e vou andando como quem foge em silêncio, sem querer chamar a atenção de ninguém. Tenho medo que ela me grite - TU AÍ! TU QUE FOGES DE MIM, NÂO SERÁS TÃO LOUCO QUANTO EU?

sábado, 30 de janeiro de 2010

El Corte Inglés

   Os empregados do Corte Inglês surgem sempre em grupos de três, muito direitos e sorridentes, como se fossem figurantes de um qualquer filme invisível. Tem ar e pose de comissários de bordo, e isto não é de agora, pois quando era miúdo lembro-me de ir a Vigo e aquela aparência de felicidade saciada era a mesma. Uma calma solícita de quem vai ter prazer em encontrar uma criança perdida e a devolver a uns pais distraídos. Parecem estar sempre no meio de conversas curtas e inodoras, pontuadas por leves inclinações do corpo em jeito de conclusão do parágrafo. Braços atrás das costas, passinho adelante, gargalhada com sonoridade certificada pela norma ISO 9001, e depois dispersam como andorinhas e formam novos grupos de três unidades.

Conversas com Deus#1

- Sabes Deus, estive a ler aquele teu livro enorme, a bíblia, e aquilo realmente é uma história do outro mundo.
- Gostaste? Fico muito contente com isso, porque há aí algumas pessoas que desdenham daquilo, como o teu irmão Taramagos, por exemplo, está sempre a criticar-me o livro.
- Queres dizer Saramago, não é Deus?
- Isso! Saramago! Isto só pode ser um acto falhado, engano-me sempre no nome do homem.
- Mas voltando ao teu livro, como é que se consegue escrever tão bem? É que até mete raiva, como diz o Saramago sobre o outro que escreveu Jerusálem, não há direito que um tipo tão novo escreva tão bem...
- Eu também era novito quando escrevi a bíblia. Vou confessar-te um segredo, eu tirei um curso de escrita criativa com Alá. Já leste alguma coisa dele?
- Não, por acaso não li nada.
- Mas devias, mas devias...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Notas

  Não sei se devo, ou não, falar do que penso. Hoje acordei com três pensamentos brilhantes, pelo menos assim me pareceram enquanto fazia a barba e abria a água para um chuveiro matinal. O engraçado dos pensamentos é que são apenas isso: pensamentos. Devido à sua consistência etérea devemos agarrá-los rapidamente por meio de algum dispositivo que os consiga materializar.
Sendo assim, ia eu a caminho do trabalho, e quase me arrisquei a escrevê-los (aos pensamentos ditos brilhantes) num bocado de papel que trazia no bolso. Tinha sorte, pensei eu, pois havia uma caneta Bic preta num dos bolsos do meu casaco de couro. Estavam ao meu lado duas raparigas, e isso foi o suficiente, confesso-o agora, para inibir a minha coragem de escritor. Acabei por não escrever coisa alguma, espreitando apenas o bocado de papel, que para minha surpresa continha já meia dúzia, ou mais, destes pensamentos que por vezes considero brilhantes. Senti uma certa vergonha em exibir aquele papelito rabiscado em frente àquelas meninas bonitas. Era uma espécie de atestado de senilidade precoce, eu ali segurando um pedaço de papel com anotações crípticas, à maneira dos velhotes que coleccionam recortes de jornal, ou tomam nota de coisas absurdas que lhes parecem extremamente importantes. Assim sendo, os pensamentos brilhantes ficaram na gaveta, isto é, no sítio onde nasceram, pois os outros pensamentos (vergonha e desconforto da idade) levaram a melhor sobre o meu corpo. Fiz de conta que consultava uma nota importante, franzi o sobrolho de forma semi-inteligente, e guardei apressadamente o papel, sentindo nesse momento o corpo da caneta Bic na palma da mão, e era como se tudo em mim fosse uma traição.